A QUESTÃO DO PASTO PARA GALINHAS CAIPIRAS

Realmente uma bela imagem de se ver!

A manutenção de pastagem para galinhas criadas em sistema colonial, ou caipira, soltas a campo, é invariavelmente preconizada nos manuais e literaturas afins, de forma que se tornou uma prática generalizada, raramente contestada ou analisada de maneira objetivamente técnica, permanecendo mais no “faço, mas não sei por que” do que no “faço porque é benéfico para minhas aves”.

Transcrevo a seguir, na íntegra, parecer emitido por especialista da área sobre o assunto:

 

Complementando com mais informações. A galinha sendo um animal monogástrico [diferentemente dos bovinos – ruminantes], tem dificuldades em quebrar/digerir as fibras dos verdes (gramíneas, capins possuem altos teores de fibra), portanto a sua ingestão trará poucos benefícios nutricionais, além de poder intoxicar as aves. As forrageiras consumidas pelas aves são muito pouco aproveitadas, devido a sua quase inexistente digestão fermentativa no trato gastrointestinal. Dessa forma, o consumo destes alimentos fornece somente alguns poucos nutrientes e, principalmente, os pigmentantes chamados de carotenoides. Estes pigmentantes imprimem algumas características desejadas aos produtos, como ovo com gema mais vermelha e pele dos frangos mais amarelada. Outros alimentos, como a abóbora e o mamão também são ricos nestes pigmentantes. Assim, fundamental para o sucesso da utilização de gramíneas na produção de aves é a sua rusticidade e tolerância ao pastejo das aves.

Os verdes, frutas e verduras as aves aproveitam os pigmentantes naturais para pele e gema dos ovos, principalmente e devem ser fornecidas as aves como suplementação e não como base da alimentação, pois o objetivo principal da pastagem é proteção vegetal [dos piquetes].

Então, pelas aves terem estas dificuldades de quebrar fibras dos verdes, o produtor deve fornecer alimentação/ração balanceada à base de alimentos que facilitem a digestibilidade pela ave. Tradicionalmente utiliza-se milho e soja como fontes de energia e proteína respectivamente, mas em diferentes regiões do Brasil, pode-se haver a produção de alimentos alternativos, que eventualmente podem ingressar na formulação desde que avaliado seus fatores anti-nutricionais presentes:

Ex de alguns fatores antinutricionais encontrados em alimentos alternativos:
– Despigmentação da pele e gema do ovo,
– Princípios tóxicos para as aves
– Inibidores de enzimas (caso da soja integral sem processo térmico ou químico)
– Excesso de fibras

Embrapa Suínos e Aves

Pelo que se pode concluir, na verdade a ingestão de capins pelas aves, longe de ser benéfica e um suplemento vantajoso para a nutrição balanceada, constitui até certo risco e fator negativo no aproveitamento dos nutrientes da ração, uma vez que o elevado conteúdo de fibras dos capins (26/30% – Fibra máxima recomendada para aves 5%) precipita sua passagem pelo trato digestivo, além do diminuto teor de proteínas, que fica ente 3 e 10%. Fica então na esfera da utopia aquela apregoada “força do capim verde, cheio de nutrientes e vitaminas…”, pois o fornecimento de ração balanceada de primeira qualidade, em quantidades adequadas supre totalmente as necessidades da ave.

Desta forma da pastagem só se aproveita mesmo algum conteúdo de carotenóides, benéficos para as características organopléticas de ovos e carne e que podem perfeitamente ser supridos pela oferta de legumes e outros vegetais com maior teor de xantofila, menos fibras e maior conteúdo nutricional, conforme sugerido acima. Pretender manter um plantel de poedeiras com desempenho produtivo e condições físicas satisfatórias, comendo milho e capim, é ingenuidade ou desinformação.

A manutenção de pastagem destina-se então mais para preservação do solo do que para trazer benefícios nutricionais para as aves. É romântica a imagem de belas galinhas passeando em parques gramados, porem pelo seu hábito natural de ciscar, cavoucar e revirar o solo em busca de larvas e insetos, na prática é quase impossível manter estas pastagens por longos períodos. Mesmo observando-se  densidade de lotação superior ao determinado pelo MAPA (Ofício Circular/DIPOA n° 60/99) de 3m2/ave de área no piquete, galinhas ao contrário de ruminantes que só comem as folhas do capins, literalmente extirpam as raizes,mesmo em capins de enraizamento profundo, sem contar com os períodos de estiagem e geadas.

Pela experiência o que nos pareceu praticável e vantajoso foi o seguinte:

*Manutenção de piquete com área disponível de 3m2/ave ou mais se possível,arborizado,preferencialmente com algumas espécies frutíferas pouco exigentes (amora, goiaba),além de preservação da vegetação de capoeira nativa (assa peixe,rebentão,capoeira branca,alecrim,etc..)

* Fornecimento de verduras, restos de culturas,legumes,frutas descartadas ou passadas( Segundo informação técnica 6g/ave/dia de verdes são suficientes).Por orientação de renomado autor da matéria, fornecemos em boa quantidade bananeiras (folhas frescas,tronco e frutos),com ótima aceitação pelas aves. Pelo conteúdo de tanino este vegetal poderia apresentar algum efeito negativo no processo digestivo, porem na prática vem sendo usado há anos sem que se observe qualquer indício destes efeitos, além do que o tanino é reconhecidamente vermífugo natural e antidiarreico.

Observamos também que a manutenção do piquete com capoeira, propiciou ótimo ambiente relativo ao conforto animal, onde as aves estabelecem grupos e famílias, sem comportamento de disputa entre galos, estabelecendo territórios e locais de preferência. Na fase inicial de postura, no entanto é necessária constante vigilância no piquete, evitando a formação de ninhos e permanência de ovos em moitas e buracos. Dentro de pouco tempo as poedeiras ficam “educadas” e passam a frequentar normalmente os ninhos no abrigo.

Por se tratar de assunto controverso e pouco discutido em bases tecnológicas, opiniões, estudos e contribuições informativas são bem vindos pelo e-mail de contato.