O SEGREDO DOS OVOS AZUIS E VERDES: GENÉTICA MAPUCHE (ARAUCANA)

 

A GALINHA MAPUCHE ARAUCANA

A galinha Araucana possui várias características que a fazem uma raça única no mundo. De fato, é uma galinha tão única que em 1914, ao ser apresentada Salvador Castello, diretor da Real Escola de Avicultura da Espanha, acreditou que estava descobrindo uma nova espécie, e a denominou Gallus inauris. A. A galinha Araucana era tão diferente, que uma pessoa com a experiência em avicultura de Castello, chegou a pensar que era outra espécie, dado que esta galinha era diferente em sua forma, em seu comportamento, além de algumas características únicas. Entre estas características únicas, chamou muito a atenção os brincos, geralmente localizados perto da abertura dos ouvidos, normalmente debaixo e atrás e em alguns casos no pescoço e na nuca.

Os brincos são na realidade uma deformação do canal do ouvido, que quando se projeta até o exterior do indivíduo, forma apêndices e pedúnculos epidérmicos, dos quais saem plumas, podem apresentar-se só de um lado ou de ambos. O tamanho pode ser variado, sendo como bolas grandes, ou tão pequenos que temos que procurar no canal auditivo para encontra-los, existindo muitas vezes diferenças entre um lado e outro: as vezes um é maior que o outro, mais frondoso, com distintas formas e direções ou localizados em diferentes alturas.

O gene dos brincos atua como um gene autossômico (não participa da determinação do sexo do indivíduo), além disso, é dominante e é um gene letal quando se apresenta homozigoto (quando os dois pais transmitem uma cópia do gene para sua cria, já que ela morre em sua casca entre os dias 17 e 20 de sua incubação). Assim aos exemplares que tem brincos, somente um dos pais transmitiu o gene. Este gene tem reentrância variável, ou seja, em um exemplar com brincos não importa se tem apenas um ou qual o tamanho, pois podem ocorrer todos os tipos de brincos, direitos esquerdos, grandes, pequenos, assimétricos, etc. O importante é que tenham o gene. Os exemplares com brincos também podem morrer quando pequenos, uma vez que a deformação muitas vezes lhes traz complicações internas.

Ao cruzar dois exemplares com brincos, morrerão 25% dos pintinhos na casca, porque receberam duas cópias do gene, cerca de 30% sairão sem brincos e 50% terão brincos. De todos os modos morrerá uma parte deles na casca porque às vezes os brincos nascem dentro do crâneo, outra parte deles morrerá fora da casca por problemas internos causados pelos brincos ao formar-se.

Ao cruzar um exemplar com brincos com um sem brincos, 50% de suas crias não terão brincos e os outros 50% terão, porem uma parte deles morrerá pelos mesmos motivos.

Ao avaliar os dois cruzamentos, se deu conta que quando: “se cruza dois exemplares que tem brincos entre si” e “se cruza um exemplar que tenha brincos com um que não os tenha”, se obtém o mesmo número de exemplares com brincos em sua descendência, porem muda o número de exemplares sem brinco.

As patas e tarsos verdes são uma das características próprias da galinha Mapuche Araucana, ainda que também de outras raças não aparentadas com ela. Esta cor se deve principalmente a interação de dois genes. O primeiro gene é o da presença de melanina na endoderme dos tarsos “id+” (cujo antagonista “ID” determina a ausência de melanina nos tarsos e é dominante sobre a presença de melanina na endoderme dos tarsos)

Este gene da presença de melanina nos tarsos está ligado ao sexo. O outro gene necessário para formar as patas verdes é o gene da pele amarela “w” (seu antagonista “W” “W”, da pele branca é dominante sobre a pele amarela, também existe um gene recessivo de pele branca, ainda que menos comum).

A cor da pele amarela ou branca determina a cor da epiderme.

Ao interagirem estes genes produzem tarsos ou patas verdes. A presença ou ausência de melanina se determina pelos genes “id+” e “ID” respectivamente. Então o gene “id+” (presença de melanina na endoderme dos tarsos) ao interagir com pele amarela “w” “w”, resulta na cor verde, porem quando interage com o gene “W” “W”, pele branca, gera patas de cor ardósia, azul ou cinza.

Existem distintos genótipos das patas. Deve-se lembrar de que cada indivíduo possui duas cópias de genes para um mesmo traço, um transmitido pelo pai e outro pela mãe.

Temos os seguintes tipos:

Id+/id+  +  w/w   = Patas verdes

Id+/id+  +  W/W = Patas ardósia, cinzas e azuis.

ID/ID      +  w/w = Patas amarelas

ID/ID      +  W/W = Patas brancas e rosadas

Id+/ID    +  w/w  = Patas amarelas

Id+/id+   + w/W  = Patas ardósia, cinzas e azuis.

Também é importante saber que existem padrões de plumagem que modificam a cor das patas, como a plumagem Barrado, cor de trigo, salpicado, mosqueado e flor de aba. Além disto, a cor bétula modifica cores muito escuras.

O gene de presença de melanina “id+” não é o único, também existem mutações do mesmo como “idM” e “Eei”,responsável pelas cores cinza claro e verde salgueiro. Por outro lado existe o gene “ida “que produz patas com pontos verdes, as quais podem ser patas brancas com pontos pretos ou cinzas ou amarelas com pontos verdes, dependendo da cor da pele”“.

O gene de presença de melanina nos tarsos está ligado ao sexo. Os galos se representam com seus cromossomas ZZ e as galinhas com ZW (assim como os homens humanos se representam com cromossomas XY e a mulher XX). O gene “id+” ou presença de melanina nos tarsos se liga ao cromossoma  Z ou W. Então o gene ligado a um cromossoma  Z  jamais se transferirá ao cromossoma  W  e vice versa.

 

OS OVOS AZUIS E VERDES

 

Uma das principais características das Araucanas é a coloração azul de seus ovos. Esta coloração se deve ao depósito de pigmentos derivados da bílis, particularmente a Biliverdina. O pigmento se concentra no aparelho de postura de ovos e se deposita no carbonato de cálcio que forma a casca do ovo. Por esta razão, a casca dos ovos é azul, tanto por dentro quanto por fora, em contraste com os ovos castanhos e marrons, que tem esta cor só por fora, posto que por dentro sejam brancos. Os ovos verdes se devem a combinação destas duas cores, primeiro a coloração azul forma a casca e a pinta por dentro e por fora, para depois serem tingidos só por fora com a cor marrom, a combinação de diferentes intensidades de azul com diferentes intensidades de marrom, interagem para das diferentes tonalidades de verde.

A coloração azul é dada por um gene Dominante Autossômico (cromossomo cujos genes não participam da determinação do sexo), ou seja, o gene se transmite facilmente e independe do gênero do exemplar. O gene interage de forma bastante complexa com os genes de outras colorações de ovos. Assim explicarei de forma sucinta como se transmite o gene do ovo azul.

As crias podem ter o gene do ovo azul, transmitidos apenas por um de seus pais ou por ambos.

Explico com uma simbologia própria para facilitar o entendimento: Ao gene do ovo azul denominaremos “A”, de azul e ao gene do ovo não azul denominaremos “n”. Ainda que a verdadeira letra com que se denomina o gene do ovo azul seja “O “,modificamos para facilitar a explicação.

Vamos diferenciar três tipos de indivíduos:

“AA“ – Seria um indivíduo com duas cópias do gene do ovo azul, uma transmitida por cada um dos pais, ou seja, seria homozigoto (indivíduo que herda de ambos os pais genes iguais para a mesma característica) para o gene do ovo azul.

“An” _ Seria um indivíduo com apenas uma cópia do gene do ovo azul, transmitida por apenas um de seus pais, ou seja, seria heterozigoto (estado em que um indivíduo é dotado de formas alternativas de ocorrência de um gene) para o gene do ovo azul.

“nn” _ Seria um indivíduo que não possui nenhuma cópia do gene do ovo azul, nenhum de seus pais lhe transmitiu o referido gene, ou seja, seria homozigoto para o gene de ovos não azuis.

Este três tipos de indivíduos “AA”, ”An” e “nn” podem resultar apenas estes seis tipos de interações. Aos cruzamentos representaremos com X.

Cruzamento 1: “AA” X  “AA”

100% das crias serão “AA” e homozigotos para o gene do ovo azul. Todas as crias produzirão ovo azul.

 

Cruzamento 2: “AA” X “An”

50% das crias serão “AA”

50 % das crias serão “An”

Todas as crias produzirão ovos azuis

 

Cruzamento 3: “AA” x  “nn”

100% das crias será “An”

Todas as crias produzirão ovos azuis

 

Cruzamento 4: “An” x “An”

25% das crias serão “AA”

50% das crias serão “An”

25% das crias serão “nn”

75 % das crias produzirão ovos azuis

 

Cruzamento 5: “An” X “nn”

50% das crias serão “An”

50% das crias serão “nn”

50% das crias produzirão ovos azuis

 

Cruzamento 6:  “nn” X “nn”

100% das crias serão “nn” _ Nenhuma produzirá ovos azuis

Dúvidas frequentes:

_ Uma galinha que nasceu de um ovo marrom pode por ovos azuis?

 

Resposta: Sim, quando apenas o pai tenha transmitido o gene do ovo azul. Isto se explica pelos cruzamentos 3 e 5

 

_ Uma galinha que nasceu de um ovo azul pode por ovos marrons?

Resposta: Sim, quando a mãe tenha recebido o gene do ovo azul por parte de apenas um dos pais e o pai não tenha o gene do ovo azul, ou seja, mãe “An” e pai “nn”. Isto se explica pelos cruzamentos 4 e 5

 

*Este documento foi criado e redigido por nosso irmão em Chile Gonzalo Carvajal (kollonco araucano), a quem muito agradecemos, para fornecer a outros criadores informação de utilidade  da raça Mapuche Araucana com finalidade de fomentar o resgate e restauração da galinha Mapuche Araucana e a criação seletiva da apreciada raça.

Versão em português traduzida em www.ovocaipira.eco.br